Liderar entre decisões e limites: a rotina de quem empreende convivendo com uma doença rara

Ricardo Jacobs convive com porfiria aguda intermitente e fala sobre negócios, saúde, recomeços e a nova fase com células-tronco.

Tocar uma empresa já exige fôlego. Tocar vários negócios enquanto se convive com uma doença rara exige outra relação com o tempo, com o corpo e com as próprias prioridades. No Brasil, doenças raras são aquelas que afetam até 65 pessoas a cada 100 mil indivíduos. Na prática, por trás dessa definição existem pacientes que precisam lidar com diagnósticos difíceis, tratamentos longos, custos altos e uma rotina que nem sempre permite planejamento.

Ricardo Jacobs, empreendedor, investidor e empresário, conhece esse desafio de perto. Ele convive com porfiria aguda intermitente, uma condição rara que, nos últimos anos, passou a fazer parte de sua vida pessoal e profissional. Mesmo em meio a crises, internações e períodos de tratamento, continuou acompanhando seus negócios, decisões estratégicas e operações em diferentes setores.

A doença mudou a forma como ele olha para a liderança. Para Ricardo, empreender nessas condições não é tentar provar força o tempo todo. É entender quando precisa parar, quando precisa delegar e quando uma empresa precisa funcionar sem depender exclusivamente da presença do dono.

“Quando a saúde impõe limite, você entende que negócio nenhum pode estar apoiado em uma pessoa só. Precisa ter equipe, processo e gente de confiança”, afirma.

Essa percepção não nasceu apenas da doença. Ricardo começou a trabalhar cedo. Depois, construiu uma carreira passando por áreas como administração, finanças, indústria, expansão de marcas, eventos, entretenimento e investimentos.

Ao longo da trajetória, atuou em operações como a S.L. Toalheiro, participou de projetos de expansão de marcas, incluindo a Devassa, e palestrou para grandes grupos como Embraer, Odebrecht, Braskem e Grupo Neoenergia. Hoje, está à frente de negócios ligados a eventos e experiências, como RJ Events, Espaço de Eventos e Landmark, responsável por operações como High Club e The Home.

Mas, nos últimos anos, a rotina empresarial passou a dividir espaço com uma batalha mais íntima. A porfiria exigiu adaptações, pausas e uma rede de apoio. Em alguns momentos, decisões importantes precisaram ser tomadas do hospital. Em outros, a prioridade foi simplesmente atravessar o dia, respeitar o tratamento e reorganizar a agenda.

Agora, Ricardo iniciou uma nova etapa com um tratamento com células-tronco. Ele trata o momento com emoção, fé e expectativa. Para o empresário, o procedimento representa uma possibilidade de recomeço depois de seis anos marcados por desafios ligados à saúde.

O tratamento também traz uma barreira financeira. Por ser de alto custo, exige planejamento, acesso a bons profissionais, informação segura e apoio de pessoas próximas. Para muitos pacientes que buscam alternativas terapêuticas, esse peso financeiro se soma ao desgaste físico e emocional.

A frase mostra uma parte da vida que nem sempre aparece quando se fala de empresários. Por trás de reuniões, metas, contratos e decisões, existe alguém tentando conciliar medo, fé, responsabilidade e vontade de continuar. No caso de Ricardo, a doença não apagou os planos. Ela mudou o ritmo, trouxe novos limites e reforçou a importância de construir negócios que não dependam apenas da força individual.

Sua história também provoca uma reflexão sobre alta performance. Em um mercado que costuma valorizar quem nunca para, conviver com uma doença rara mostra que liderança não combina com invulnerabilidade. Às vezes, liderar é reconhecer a própria fragilidade, pedir ajuda e preparar a empresa para seguir mesmo quando o corpo exige cuidado.

Para Ricardo Jacobs, seguir empreendendo não significa ignorar a saúde. Significa aprender a caminhar com ela. Entre tratamentos, negócios e recomeços, sua trajetória mostra que superação não é viver sem dificuldade, mas continuar encontrando sentido mesmo quando a rota precisa ser refeita.