
Com as primeiras chuvas no Centro-Oeste e a previsão de retorno do tempo seco, especialista em fisioterapia explica por que a mudança brusca de umidade e temperatura exige atenção redobrada, e como entender bem as orientações de saúde pode evitar crises
Depois de semanas de ar seco, as primeiras chuvas trouxeram alívio na região do Centro-Oeste. O descanso, porém, pode ser curto: a previsão é de que o tempo seco volte. Essa alternância entre umidade e secura exige adaptação do organismo e costuma piorar quadros de doenças pulmonares crônicas, especialmente entre idosos e pacientes com sequelas neurológicas. Às vésperas do Dia Nacional do Idoso, celebrado em 1º de outubro, o tema ganha ainda mais relevância.
Os números ajudam a dimensionar a oscilação em diferentes pontos da região. Em Goiânia, a capital goiana ficou cerca de 70 dias sem chuvas consistentes até o início de setembro, segundo o Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo); até o dia 22, já haviam caído 55 mm no mês, o equivalente a 177% da média esperada para setembro, de acordo com o CPTEC. Em Cáceres (MT), sede da Universidade do Estado de Mato Grosso, o padrão se repete: até o dia 11 de setembro já haviam caído 47 mm, 127% da média histórica do mês, também segundo o CPTEC — depois de dias de calor acima de 42°C e umidade muito baixa registrados no início do mês em todo o estado. A trégua, porém, tende a ser irregular: os modelos indicam volta do sol e nova redução da umidade em diferentes municípios da região nos próximos dias.
Do ponto de vista da saúde, a Fiocruz aponta que temperaturas mais frias, baixa umidade e piora da poluição elevam a incidência de doenças respiratórias no país, e dados do DataSUS de 2024 mostram mortalidade maior entre idosos por essas doenças. Em Goiás, a Secretaria de Estado da Saúde orientou os municípios, no fim de agosto, sobre os riscos do calor extremo, da baixa umidade e da fumaça de queimadas.
Segundo a doutora em Reabilitação Pulmonar em Doenças Neurológicas e Letramento em Saúde e docente de fisioterapia da Estácio, Letícia de Araújo Morais, o sistema respiratório sente o impacto dessas variações. “O ar seco resseca as vias respiratórias e torna mais espessa a secreção, o que dificulta a limpeza dos brônquios. Já a umidade e a queda de temperatura favorecem a inflamação e a proliferação de vírus e fungos. Quando o organismo alterna entre essas duas condições em poucos dias, o esforço de adaptação é maior, e quem já tem uma doença pulmonar sofre mais”, explica.
Quem sofre mais
Idosos e pessoas com doenças respiratórias crônicas, como asma, DPOC e bronquite, formam o grupo mais vulnerável. O mesmo vale para pacientes com sequelas neurológicas, que podem ter a força dos músculos respiratórios reduzida e mais dificuldade para tossir e eliminar secreções. “Nesses casos, uma simples irritação pode evoluir para uma infecção. Por isso, a prevenção precisa começar antes da crise”, afirma a especialista.
Sinais de alerta
Idosos e cuidadores devem ficar atentos a sinais de piora e buscar avaliação profissional diante de qualquer mudança. “O primeiro sinal costuma ser o aumento da falta de ar ou do cansaço para atividades que antes eram toleradas. Também merecem atenção a tosse mais frequente, com mudança na cor ou na quantidade do catarro, o chiado no peito e a febre. Já sonolência, confusão mental ou lábios arroxeados indicam necessidade de atendimento imediato”, alerta Letícia.
Reabilitação pulmonar: autonomia e qualidade de vida
A reabilitação pulmonar reúne exercícios respiratórios, técnicas de higiene brônquica, condicionamento físico e educação do paciente. “O objetivo é fortalecer a musculatura da respiração, facilitar a eliminação de secreções e devolver ao idoso a confiança para realizar as atividades do dia a dia. Não se trata apenas de respirar melhor. Trata-se de manter a independência, caminhar, cuidar de si e participar da vida familiar”, destaca Letícia.
Na transição entre chuva e tempo seco, medidas simples ajudam a proteger a respiração em casa. “É importante manter a hidratação ao longo do dia, o que ajuda a fluidificar as secreções, e praticar com regularidade os exercícios respiratórios prescritos. Os ambientes devem ficar ventilados e limpos, sem poeira e mofo, e o idoso deve preferir agasalhos a mudanças bruscas de ambiente, como sair de um local aquecido para o ar frio. Também é fundamental manter a vacinação em dia, especialmente contra gripe e pneumonia, conforme a orientação médica”, indica a fisioterapeuta.
O papel do letramento em saúde
Um dos pontos centrais defendidos pela pesquisadora é o letramento em saúde, a capacidade de compreender e aplicar as orientações dos profissionais. “De nada adianta a prescrição correta se o paciente não entende o que deve fazer. Um idoso que compreende o tratamento, reconhece os sinais de alerta e sabe quando ajustar os cuidados tem muito mais chance de atravessar essa fase sem complicações”, afirma.
Na prática, isso inclui conferir se o paciente realmente entendeu as orientações. Uma estratégia recomendada é pedir que ele demonstre o que aprendeu, por exemplo, usando o inalador diante do profissional. “Muitos erros de técnica passam despercebidos e reduzem o efeito do medicamento. Quando pedimos que a pessoa mostre como faz, conseguimos corrigir na hora”, explica.
Também cabe ao profissional de saúde adaptar a comunicação. Linguagem clara, sem termos técnicos desnecessários, frases curtas, instruções por escrito com letra legível e a participação do cuidador fazem diferença. “Quando o profissional fala a língua do paciente, a adesão ao tratamento aumenta e o idoso passa a ser protagonista do próprio cuidado”, conclui a especialista.














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