
A decisão da Anvisa de permitir o cultivo de cannabis medicinal no Brasil não é apenas um avanço regulatório.
Para mim, ela tem nome, rosto e história.
Foi a partir do diagnóstico do meu filho que tudo começou. Não por escolha estratégica, não por oportunidade de mercado, mas por necessidade. Quando a saúde de um filho está em jogo, a gente não aceita o “não” como resposta definitiva; a gente pesquisa, questiona, enfrenta o medo, o preconceito e o julgamento. A gente resiste!
Foi nesse lugar, o da maternidade atravessada pela urgência, que encontrei a cannabis como ferramenta terapêutica. Primeiro para cuidar do meu filho. Depois, inevitavelmente, para cuidar de outras mães e outros filhos que batiam à minha porta com a mesma dor, as mesmas dúvidas e o mesmo cansaço de lutar sozinha.
E foi aí que entendi que quando existe propósito, a gente não para.
Segui mesmo quando tudo era tabu. Quando falar de cannabis era sinônimo de risco profissional. Quando empreender com a planta parecia um ato de desobediência. Quando ser mulher, mãe e biomédica nesse campo significava ser constantemente questionada, desacreditada e, muitas vezes, silenciada.
Nesse caminho, me tornei a primeira biomédica autorizada pela Anvisa a prescrever cannabis no Brasil. Fui também a primeira mulher a empreender com cosméticos infusionados com cannabis. Mas esses “primeiros” nunca foram sobre vaidade ou pioneirismo vazio. Foram consequência de insistir quando desistir seria mais confortável.
Ao longo de quase dez anos, mais de 40 mil pessoas passaram por atendimentos, orientações e cuidados ligados ao uso responsável da cannabis. São mães, crianças, idosos, famílias inteiras que encontraram na cannabis uma possibilidade de qualidade de vida quando outras alternativas já haviam falhado.
As associações de pacientes nasceram exatamente desse mesmo lugar: da urgência. Elas existem porque o Estado demorou. Porque o acesso falhou. Porque mães não podiam esperar uma regulamentação que nunca vinha. Essas associações cuidaram, acolheram, produziram acesso e informação mesmo sem segurança jurídica, muitas vezes sob risco pessoal.
Por isso, a decisão da Anvisa importa tanto.
Permitir o cultivo de cannabis medicinal no Brasil é reconhecer que saúde pública não pode continuar dependendo apenas de importações caras ou de decisões judiciais individuais. É admitir que regular é melhor do que fingir que não existe. É criar critérios sanitários, controle, rastreabilidade e proteção para pacientes, profissionais e associações.
É importante ser clara: regulamentar não é liberar indiscriminadamente!
O que foi aprovado trata exclusivamente de uso medicinal, científico e farmacêutico. Trata de responsabilidade, cuidado e de ciência.
Ainda há muito a ser feito. Regulamentar é só o começo e o desafio agora é garantir que essa política seja implementada com justiça, que respeite as associações, que amplie o acesso real e que não apague quem sustentou essa pauta quando ela era invisível.
Mas hoje, o Brasil dá um passo que precisa ser reconhecido.
Eu sigo aqui do mesmo lugar de sempre: da mãe, da biomédica, da mulher que escolheu não parar.
Seguiremos lutando.
Bárbara Arranz – Mãe atípica | Biomédica | Pioneira em cannabis medicinal no Brasil, com mais de 40 mil pessoas atendidas em quase 10 anos | Empreendedora | Fundadora da Linha Canabica da Ba e Hemp Vegan.